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Welington Almeida Pinto
Certo dia, ao voltar para casa puxando seu burro com uma boa carga de lenha na carroça, um lenhador parou para observar uma raposa deitada debaixo de imensa árvore e, no alto, acomodado num galho, um tigre saboreava uma boa presa.
Depois de certo tempo, já saciado, o felino deixa cair o que sobrou da caça. A raposa, esperta como sempre, lambeu os beiços de agradecimento e passou a degustar a carcaça jogada às suas patas.
O lenhador, admirado com a cena que via, resmunda de si para si:
- Se Deus ajuda a raposa, irá me ajudar também. Vou fazer o mesmo.
Animado com a idéia, assim que chegou em casa, trancou-se em um quarto e ficou esperando a comida cair do céu. Três dias depois, começou a ter alucinações de tanta fome e sonhou com um anjo, que lhe perguntou:
- Por que você resolveu imitar a raposa?
- Ora, se Deus é capaz de ajudar um bichinho à-toa como a raposa, porque não vai me dar o que comer sem eu fazer nada.
– Não pode ser.
- Por quê?
- Não confunda as coisas, homem. Se ainda pretende permanecer vivo, levante-se. Pegue suas ferramentas e siga o caminho do tigre - manda o anjo.
São antigas as afirmações de que a exploração entre seres nunca deixou de existir, ou de que seja uma forte manifestação da natureza humana, que trava uma imensa batalha para manter o poder de viver do que os outros produzem. Nada mudou. Atitudes assim continuam sendo usadas para legitimar a expansão do capitalismo selvagem, que educa as pessoas para o parasitismo social dentro de uma sociedade cada vez mais individualista, que acredita em levar vantagens injustas sobre tudo, mesmo em desacordo com a ética ou a moral dominante ou, oficiosamente, imposta no meio político, principalmente, brasileiro. Isso é roubo.
Lembrando Gogol: ... ‘É muito doloroso vermos aqueles que perdem o caminho da vida e seguem o outro, o que conduz à morte’. O sociobiologista Bert Hölldobler, em 1990, reforçou dizendo que o parasitismo social é a coexistência, em um mesmo ninho, de duas espécies de insetos sociais, uma das quais é parasiticamente dependente da outra.
Assim, fecho com um trecho da crônica de Lya Luft, ‘Este Nosso Brasil’, publicado na ‘Veja’ de 20 de junho de 2011, [...] Acho que andamos otimistas demais, omissos demais, alienados demais. Devemos ser pacíficos e ordeiros, mas atentos. Aplaudir o erro é insensatez, valorizar o nebuloso é burrice, achar que tudo está ótimo é tiro no pé.
Para os interessados em ler a crônica basta clicar: http://avaranda.blogspot.com/2011/06/lya-luft-este-nosso-brasil.html
FBN© 2004 * PELOS CAMINHOS DO TIGRE/WELINGTON ALMEIA PINTO - CATEGORIA: RECONTO DE HISTÓRIAS TALMUD, LIÇÕES JUDAICAS.
Welington Almeida Pinto é escritor. Entre outras obras, Santos-Dumont no ‘Coração da Humanidade’, ‘A Saga do Pau-Brasil’ e ‘O Voo do Pássaro Dourado’. Site: www.welingtonpinto.blogspot.com - E-mail: welingtonpinto@yahoo.com.br
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